Em maio de 2019, um relatório da WGSN apontou um comportamento que ganhava cada vez mais força: segundo a agência internacional de pesquisas de tendências, as pessoas estavam, no mundo inteiro, repensando o conceito de “velho”. Quatro anos antes, a moda ensaiou lançar essa discussão quando a marca francesa Céline, então dirigida pela inglesa Phoebe Philo, decidiu colocar, como estrela de sua campanha, a escritora octogenária Joan Didion. E não no papel de uma velhinha nostálgica, mas no de uma mulher que inspira outras. Cheia de rugas, ok, mas também de ideias brilhantes e roupas incríveis. O mercado reverenciou, aplaudiu, mas com aquele entusiasmo dos que encaram a ação mais como um gesto de rebeldia do que como um real sinal do início de uma revolução contra o fim da ditadura da juventude na moda. De 2015 para 2016, quadruplicou o número de modelos de mais de 50 anos nas quatro principais fashion weeks do mundo (Nova York, Londres, Milão e Paris), segundo relatório do site Fashion Spot Diversity, especializado em aferições sobre diversidade na moda. Surpreendente, mas ainda pouco efetivo, considerando que a proporção era de 20 mais velhas para mais de 2 mil garotas de, em média, 23 anos, escaladas em todas as temporadas.
O coro, porém, seguiu crescendo. A ele, se uniram a presença cada vez mais frequente de modelos veteranas de mais de 40 anos – Amber Valetta, Karen Elson, Liya Kebede –, além das vozes e corpos vindos das ruas e salas de estar de jovens estilistas que, ao assumirem importantes maisons, colocaram na passarela suas amigas de tipos físicos e idades variados, num movimento parecido com o que Vivienne Westwood fez nos anos 1970 ao trazer o punk – e os punks – para a moda, e com o que Jean Paul Gaultier realizou nos anos 1980, com um casting de mulheres gordas e magras, jovens e velhas, altas e baixas, bonitas e estranhas em seus desfiles. Mas em 2018, o poder de repercussão global era incomparável, e foi quando o georgiano Demna Gvasalia, diretor criativo da Balenciaga, colocou cinco mulheres acima dos 50 anos no desfile da cultuada marca. Foi no mesmo ano em que Donatella
Versace reuniu cinco das icônicas supermodelos dos anos 1990 – Naomi Campbell, Cindy Crawford, Linda Evangelista, Helena Christensen e Carla Bruni – numa simbólica e inédita imagem de um desfile de moda cujas grandes estrelas eram mulheres entre 40 e 50 anos.
Chegou 2021 e, ainda que o WGSN não pudesse prever, uma pandemia obrigou o mundo a rever muita coisa. Entre elas, o conceito de que o velho é sinônimo de ultrapassado e ruim; e o novo, de melhor e mais atual. Quanto ao que é considerado velho para a moda, incluindo as mulheres, o momento é de questionamento e ação: de que maneira transformar essa onda atual de diversidade etária fashion num maremoto rumo a uma mudança definitiva do paradigma da idade na moda e na sociedade, quando, enfim, será valorizada e celebrada tanto a beleza energizante da juventude, quanto a sabedoria instigante da maturidade?
FEMINISMO, REDES SOCIAIS, PODER DE CONSUMO
“O mercado de modelos mais velhas está bombando. Se não posso pegar um trabalho, sei que há 10 para ocupar o meu lugar. Tenho certeza de que este é um caminho sem volta”, acredita Valéria Rossatti. Aos 46 anos, ela era empresária até pouco mais de dois anos, quando, ao passar pela transição da tintura para o cabelo grisalho, virou modelo praticamente do dia para a noite. De uma aparição no Instagram da Sallve, quando a marca de cosméticos foi lançada, em 2019, Valéria rapidamente pulou para um contrato com a Natura e campanhas para marcas tão diversas quanto as gigantes Bradesco, Volkswagen, C&A, Riachuelo, e as de nicho Flavia Aranha, Pair e Rócio Canvas. Ela também é uma das participantes do squad de moda plural do ZZ Mall.
Atualmente, Valéria é a principal representante, no Brasil, das mulheres com mais de 40 anos no mercado de beleza, algo que começou com o movimento do cabelo grisalho feminino (com a plataforma @gumbre) e se expandiu para outras áreas. Ela lembra que, não faz muito tempo, não havia mulheres em campanhas de moda em quem as consumidoras adultas com mais de 40 – às vezes com mais de 30! – pudessem se inspirar. “A gente nem questionava não ter modelos como a gente”. O que mudou? Ela mesma dá parte da resposta. “Talvez seja um reflexo das redes sociais. Recebo muitas mensagens no Instagram, não só de mulheres mais velhas, mas de mais jovens, nos seus 30 anos, me elogiando, pedindo dicas”, diz. E completa. “Nas redes sociais, as marcas perceberam que as consumidoras se identificam com mulheres parecidas com elas. Toda vez que uma foto de uma campanha publicitária com uma mulher mais velha é postada e recebe mensagens como: ‘Aí sim! Finalmente alguém da minha idade’, as empresas percebem que investir na vida real dá lucro”. E dá mesmo: embora haja uma obsessão das empresas com os jovens consumidores, a geração boomer, que abrange dos 50 aos 76 anos, representa mais de 50% de todo o poder de compra dos Estados Unidos, por exemplo.
CONTEMPORÂNEA, NÃO JOVEM
Se antes as mulheres eram obrigadas a aceitar, caladas, padrões aspiracionais que não condiziam com seus verdadeiros desejos – e talvez, nem elas se dessem conta de que aqueles desejos não lhes pertenciam –, a confluência de uma quarta onda feminista, de autoconhecimento e empoderamento feminino (a partir de 2012), aliada ao poder de repercussão das redes sociais, fez com que os novos modelos aspiracionais das mulheres adultas maduras fossem impossíveis de ser ignorados, por mais que a dinâmica historicamente ageísta (de ageísmo, ou ageism = preconceito contra idade) e gordofóbica da indústria da moda tentasse impor o contrário.
“Não consigo imaginar nada pior, hoje em dia, do que se alguém me dissesse: ‘Inventaram uma pílula mágica e ela vai te fazer parecer ter 20 anos novamente’”. A declaração é de Claudia Schiffer e, ainda que possa parecer discurso de “má perdedora” aos ouvidos de muitos de nós, filhos de uma sociedade ainda machista e patriarcal, acredite, assim como ela, um número cada vez maior de mulheres não está disposta a esconder os traços de uma história da qual se orgulha. Faz questão, sim, de se conectar com as novidades do mundo, atualizar conceitos e ideias. Isso é viver o presente, ser contemporânea. E ser contemporânea não é sinônimo de ter uma aparência juvenil. “Fiz recentemente uma campanha de lingerie da Hope. Todas as outras modelos tinham a idade da minha filha. E daí? Quanto a isso, não me sinto insegura, porque não estou me comparando nem competindo com elas. Sou uma mulher adulta madura: meu corpo, meu rosto e até minha atitude no estúdio refletem isso. Aproveito minha experiência para estudar o cliente antes de fazer um trabalho, buscar referências e até poses que tragam uma postura corporal condizente com o estilo da marca”, resume Valéria.
MUITO MAIS DO QUE UM NÚMERO, MAS ELE TAMBÉM
Estar confortável com a própria idade não significa, como muita gente diz, que ela seja “apenas” um número. Claro que não é. Idade é muito repertório adquirido. São décadas de aventuras e experiências instigantes; frustrações, descobertas, alegrias e tristezas; encontros e desencontros dos mais diversos. É também menos colágeno, mais rugas e flacidez e menos tempo de vida. Autoconhecimento das potências e limitações intelectuais e também físicas. Envelhecer é o que, se tudo der certo, acontecerá com todos nós. Seremos todos velhos, e, nem por isso, iguais, com as mesmas necessidades, gostos para roupas, estilo de vida, vaidades. Muitos teremos, inclusive, os mesmos interesses de gerações mais jovens, sem o desejo de aparentar a mesma idade deles. “As marcas precisam olhar para o envelhecimento como uma oportunidade, não como um desafio, com uma mentalidade inclusiva e livre de estereótipos”, sugere o WGSN. Fica a dica.
Ilustração por: Marcela Scheid